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Stephenie Meyer – A Oculta Ameaça

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“With the continued success of Twilight seemingly unending, Paul wonders how much longer Hollywood will appeal to mindless gender stereotypes.”

In Den of the Geek

Não é de hoje a tendência de muita da literatura para estereotipar as personagens femininas, reduzindo-as a meros adornos do enredo (assistentes dos heróis masculinos), sempre com características decalcadas de determinados modelos – a princesa indefesa, a rebelde desmiolada (ovelha negra), a ingénua virginal, a devassa de bom coração, a enfermeira, etc… Personagens geralmente acéfalas, imaturas, irreflectidas, inferiores e irracionais, cuja vontade se regula basicamente por impulsos de luxúria – eterna renovação de muitos dos aspectos do mito da tradição judaico-cristã e islâmica de Eva. Esse pecado original de Eva serviu (e continua a servir) de dogmática justificação para considerar a mulher um ente somenos na sociedade. Por alguma razão, Lilith foi apagada do Velho Testamento. Ao invés de Eva, mero restolho gerado de uma costela masculina, Lilith partilha a génese de Adão e assume um patamar hierárquico igual ao do companheiro masculino. Não é, portanto, de espantar que tenha sido apagada dos cânones. Entre esse sarapatel de escolher cuidadosamente a “verdadeira palavra de Deus” e os nossos dias passaram mais de mil e quinhentos anos. Estando nós já nos arrabaldes do séc. XXI seria de esperar que esses doutrinas já se tivessem esbatido ou mesmo desaparecido. Nada mais errado, os “cânones” permanecem vivos e brotam mesmo das fontes mais inesperadas. Prova disso mesmo são “cordelistas” franchise de grande sucesso como Stephenie Meyer que perpetuam esse tumor social. Mais trágica se torna esta situação quando esse tipo de livros se destina a idades em que a literatura assume um primordial papel de formadora de carácter. Os modelos oferecidos não podiam ser piores: Bella, uma personagem oca, plana, depressiva (doentia), submissa, sem aptidões, que passa a maior parte do tempo a questionar-se porque razão um belo rapaz (Edward, uma caricatura de um rapaz psicologicamente controlador que se torna o namorado de sonho de qualquer teen pela caneta de Meyer) se interessou por ela, uma rapariga vulgar em termos de beleza física – o seu grande problema existencial… A mensagem parece ser que alguém só pode ter algum valor mediante uma transformação que implique um acréscimo dessa beleza física. Um sublime apelo à cirurgia estética? Talvez. Sem dúvida um insulto a todos os que vêem a mulher para além da ideia de um mero objecto estético, um ultraje a quem tem consciência de ser mais do que isso. Repare-se que a própria Meyer refere a relação entre Bella e Edward neste termos: “and so the lion fell in love with the lamb”. A própria Bella refere-se a si como “stupid lamb” e Edward diz ser um “sick, masochistic lion”. Uma ode à auto-estima e inteligência, sem mais comentários…

Há quem diga que o sucesso da “saga” (prefiro o termo franchise) se deve ao facto de as jovens actuais estarem na realidade muito próximas daquele “tosco molde” representado por Bella, sendo assim fácil a identificação com essa personagem. Espero sinceramente que não, pois isso representaria um retrocesso civilizacional, um malogro intelectual e o indício tão desejado pelos mesmos que eliminaram a perigosa Lilith. A sociedade patriarcal agradece!

O perigo dos estereótipos é mais importante do se pode imaginar à partida – os eufemismos e desculpas não suavizam o problema. Não só influencia negativamente a avaliação feita por outros, relativamente a um determinado grupo, como ameaça a “performance” do indivíduo que esteja neles englobado, tal com demonstrou Steele.

Mas os problemas de Meyer não se ficam por aqui, mas esse tema fica para uma próxima oportunidade.

Andreia Torres

“Both Rowling and Meyer, they’re speaking directly to young people.       [. . .]  The real difference is that Jo Rowling is a terrific writer and Stephenie Meyer can’t write worth a darn. She’s not very good.”

Stephen King numa entrevista ao USA Weekend

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